O Brasil tem tudo para ser um ator relevante na política internacional: é a maior economia da América Latina, tem uma das maiores populações do mundo, possui recursos naturais estratégicos e uma tradição diplomática respeitada. E, no entanto, a política externa brasileira oscila de forma que frequentemente surpreende aliados e parceiros.

A explicação mais comum é a polarização política. Quando muda o governo, muda a orientação de política externa. Há algo de verdade nisso — a diferença entre as orientações dos últimos governos é real e significativa. Mas a explicação é insuficiente.

O problema mais profundo é estrutural: o Brasil não tem um consenso mínimo sobre o que quer ser no mundo. Há pelo menos três visões em competição. A primeira, de tradição autonomista, vê o Brasil como líder do Sul Global, defensor da multipolaridade e crítico das assimetrias da ordem internacional. A segunda, mais alinhada ao Ocidente, prioriza relações com Estados Unidos e Europa e vê a integração à ordem liberal como caminho para o desenvolvimento. A terceira, pragmática, subordina a política externa aos interesses econômicos imediatos, sem compromisso ideológico claro.

Essas três visões não são apenas posições políticas — refletem diferentes diagnósticos sobre o lugar do Brasil no mundo e diferentes apostas sobre como o país pode prosperar. E nenhuma delas tem conseguido se impor de forma duradoura.

O resultado é uma política externa que muda mais do que deveria, que não consegue construir credibilidade de longo prazo, e que frequentemente deixa parceiros confusos sobre o que esperar do Brasil.

A solução não é simples. Mas começa por um debate mais honesto sobre o que o Brasil quer — e pode — ser no mundo. Um debate que vá além das disputas eleitorais e construa algum consenso mínimo sobre interesses nacionais de longo prazo.