Toda semana aparece uma nova pesquisa sobre o impacto da inteligência artificial no mercado de trabalho. Algumas preveem catástrofe — dezenas de milhões de empregos extintos em poucos anos. Outras são mais otimistas — a IA vai criar mais empregos do que vai destruir, como aconteceu com outras revoluções tecnológicas. O problema é que ambos os campos frequentemente usam os mesmos dados para chegar a conclusões opostas.

O que os dados brasileiros realmente dizem? Vamos tentar ser mais precisos.

Primeiro, é importante distinguir entre automação e IA. A automação de tarefas rotineiras — tanto físicas quanto cognitivas — está em curso há décadas no Brasil. Caixas de banco, operadores de telemarketing, trabalhadores de linha de montagem: esses grupos já enfrentaram transformações significativas nas últimas duas décadas. A IA generativa representa uma aceleração desse processo, mas não uma ruptura completa.

Segundo, o impacto é profundamente desigual. Trabalhadores com ensino superior em áreas como direito, contabilidade e jornalismo estão enfrentando pressões que eram impensáveis há cinco anos. Ao mesmo tempo, trabalhadores em serviços que exigem presença física — cuidadores, encanadores, eletricistas — estão relativamente protegidos no curto prazo.

Terceiro, o Brasil tem características específicas que modulam esses impactos. A informalidade elevada significa que muitos trabalhadores já operam fora dos sistemas que seriam mais facilmente automatizáveis. A desigualdade de acesso à tecnologia cria uma divisão entre empresas que conseguem adotar IA e as que não conseguem.

O cenário mais provável, com base nos dados disponíveis, não é de colapso nem de abundância generalizada. É de transformação gradual e desigual, com ganhos concentrados em empresas e trabalhadores que conseguem se adaptar e perdas concentradas em segmentos específicos que não têm capacidade de transição.

A política pública precisa se preparar para esse cenário: investimento em requalificação profissional, sistemas de proteção social mais flexíveis, e regulação que garanta que os ganhos de produtividade sejam distribuídos de forma mais ampla.